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MYSTERIUM ESSE REVELANDUM

A instalação intitulada Mysterium esse revelandum tem como finalidade a aproximação das pessoas à composição, cuja dimensão é impressionante. Ao contornar a obra e volver o olhar de cima a baixo, descobrindo os seus detalhes, o espectador entra no fluxo de pensamentos sobre as diversas questões que a mesma abrange. No espaço encontra-se a instalação, composta por sobreposições e camadas de folhas sintéticas, na escala das cores aquáticas, presas em um suporte no teto de onde caem maleavelmente em pedaços emendados e espalham-se sobre um fundo sintético e púrpuro, na forma de uma gota respingada, sobre a qual mesclam-se gotinhas e pequenos pontos recortados. A composição de cores e as camadas internas seguem os mais densos matizes da escala d’água, e as camadas arranjadas em cadeias e fixadas por um fio de nylon podem fazer lembrar uma queda d’água. Na parte de fora da obra, pendem transparências nas variadas formas de gotas e de pingos escorridos. Entre eles são colocados fragmentos de radiografias cortados em forma de gotas d’água. Assim o espectador ganha a visão do interior de um organismo biológico, descobrindo um mundo interno e inacessível.
Recortes transparentes pendendo dos diversos elementos da composição sugerem, devido à sua estrutura, a cadeia de um DNA. Nas transparências, por sua vez, podem ser vistas, esporadicamente, finas linhas desenhadas em vermelho, que correspondem a estruturas orgânicas e microaquáticas. O olhar ativo do espectador, incentivado e exigido pela composição, criando um relacionamento com a obra, no sentido adorniano, torna a reflexão uma ação dinâmica e dá visibilidade à nomeação da obra instalada. O título Mysterium esse revelandum refere-se à forma latina de expressar uma tarefa a ser cumprida, correspondendo, em português, ao verbo “dever” ou à expressão idiomática “é para ser”. A instalação, com os seus motivos subjacentes, almeja, portanto, iniciar a confrontação de cada um com os pensamentos fundamentais sobre os mistérios da vida e da própria existência, os quais, segundo o título, carecem de ser revelados por cada um de nós, ou seja, deveriam ser revelados por cada pessoa. Levando em consideração que cada indivíduo, como sujeito da própria história, deveria encontrar-se a caminho da revelação das questões existenciais da vida, a instalação artística faz um convite ao público para direcionar o olhar para dentro, proporcionando, assim, um momento de contemplação e de reflexão ativa.  


AEQUILIBRIUM COSMICUM

Nas composições desta série, a temática da geognósis ontológica é refratada na sua profundidade de dimensões cromáticas. A disposição e a composição das folhas sintéticas e multicoloridas permitem ver em profundidade a multiplicidade das camadas de cores, formas e dimensões. As formas e as estruturas desenhadas em alguns pontos permitem insinuar topografias anatômicas. A sobreposição das transparências multicores origina dimensões cromáticas em várias camadas; a pluridimensionalidade de cores daí resultante é o efeito do jogo entre a transparência e a sobreposição das cores. A transparência dos materiais bem como os fragmentos de radiografias inseridos na composição proporcionam a contemplação daquilo que normalmente é invisível, abrindo o caminho do conhecimento geognóstico interior.


ORGANISMUS POLYMORPHUS

A partir de uma perspectiva de profundidade quase microscópica, o observador adentra-se no interior de um organismo, encontra um fundo poroso de espuma sintética ou um fundo sensitivo de látex, os quais, devido à sua estrutura, podem fazer lembrar a pele, ainda que não estejam dispostos de maneira a formar uma superfície. Nesses fundos, sobrepõem-­se, em camadas pluridimensionais e de forma dinâmica e viva, leitosas transparências sintéticas, permeadas, também, por pontos recortados. Em algumas partes, encontram­se finos desenhos a lápis, fixados com spray de cabelo, que apresentam detalhes de formas e de estruturas da anatomia orgânica. O caráter polimorfo de um organismo revela­se pelo fato de suas várias camadas de transparências poderem ser desconstruídas e reconstruídas ad infinitum.
 

ORGANUM

Nos planos de acrílico sobrepostos em camadas, partes de um organismo apresentam-
se como se estivessem em lâminas para microscópio. O observador penetra no interior desse organismo, composto de diferentes camadas de folhas com desenhos a lápis, apoiadas numa base de espuma, e que, ao olhar, se torna um todo unitário. O olhar recai dentro desse fundo poroso de espuma, que, na sua estrutura e cor, lembra uma pele. Folhas sintéticas leitosas sobrepõem­se em camadas soltas multidimensionais que indicam aberturas recortadas. Os finos desenhos a lápis, os detalhes da forma e a estrutura orgânico­anatômica dão a impressão de uma vida interna à parte e oculta. A obra preserva a expressão artística da vitalidade de um organismo por meio de um caráter polimórfico, podendo se desconstruir e se reconstruir infinitamente, ou reordenar e alocar novamente as camadas de folhas separadas para ganhar, então, uma nova e detalhada observação sobre a vida em sua estrutura orgânica. Organum dá um modo de expressão artística ao jogo sempre variável do teclado da vida, em suas dimensões de profundidade de uma composição organicamente crescente.
 

SCALA NATURAE

O pensamento aristotélico de uma ordem cósmica (em que todas as criaturas existem em um grau de perfeição correspondente a um todo, progressiva e harmoniosamente, ordenado) é, mais uma vez, abordado, aprofundado e ampliado tanto nos aspectos dimensionais quanto nos pessoais. As folhas arredondadas nas cores do céu, do mar e da pele humana permanecem em um arranjo encadeado, em um motivo incessantemente dinâmico­multidimensional, de tal maneira que essa composição mostra­se numa combinação de formas, cores e motivos com a intenção de preservar a profundidade e a novidade simultaneamente. As estruturas orgânico­anatômicas desenhadas com traços finos encontram­-se em distribuições uniformes de folhas transparentes. Peças de cobre recortadas em forma de gota estão suspensas em sua composição, a qual, por meio de sua distribuição, dá, ao conjunto, um equilíbrio óptico e, como um elemento natural oxidante, remete à permanente mudança e transformação de todos os seres. O desafio do trabalho consiste em deixar­se envolver com o motivo organizador, no qual o fluxo de pensamento subjacente mergulha e procura o lugar próprio no todo harmônico do ordenamento da vida.
 

TOPOGRAPHIAE FLUENTES

O conjugar de formas e cores nesta vivaz composição é inspirado pelos trabalhos do paisagista brasileiro Roberto Burle Marx. As diversas transparências de cores vivas, recortadas em forma de ondas ou gotas, parecem seguir, devido à sua composição pluridimensional, um ritmo próprio em queda livre. A ordem desimpedida e as múltiplas dimensões da obra – só um fino prego fixa cada uma das folhas em forma de onda ou gota em pontos de distâncias variadas entre si – permitem, através da incisão da luz, o reflexo de cor e sombra de cada uma das folhas em forma de onda ou gota. Em alguns pontos, encontram-se, também neste trabalho, finas linhas que revelam estruturas e formas de imagens anatômicas orgânicas. A composição adquire ainda ritmo e caráter fluido mediante sua qualidade de perpetuum mobile.
 

OS TEMPOS E OS MARES

Em folhas sintéticas verde turquesa, onduladas, não transparentes e ordenadas em sobreposição, Os Tempos e os Mares marca a transição para uma fase autorreflexiva e concludente da expressão artística de Elizabeth. O aspecto da temporalidade, dos momentos na infinitude, recebe uma ênfase marcante. A obra compõe-se de camadas gentilmente onduladas, que, como um todo, se encontra prestes a formar uma gota. Pêndulos dourados, cada um em seu próprio compasso, estão fixados nessas ondas. A gota em queda permite antever a infinitude da água mediante sua densidade. Os pêndulos, através de seus compassos, tornam sensível a irresistibilidade do mundo – enquanto tempo totalmente pessoal e humano. Nessa obra, o instante na eternidade e o momento na infinitude parecem dar o tom, tornando perceptível a temporalidade da vida.
 

PANTA RHEI

A grandiosa expressão de Panta Rhei é adquirida pelo motivo de sua permanente dinâmica. No primeiro terço superior da composição, sobre um fundo montado com as cores da água, transparências com as diversas cores do mar e as múltiplas formas de gotas d'água pendem, em várias camadas, como lágrimas em queda livre ou como esparsas gotas de chuva. Esse fundo é composto também por diversas transparências em forma de poças ou amebas, que atinge a altura de uma parede, abrindo seu caminho, aparentemente sem barreiras, rumo ao espaço circundante. Como nos trabalhos anteriores, encontram-se, também aqui, ainda que em quantidade mais reduzida, finas linhas desenhadas que correspondem a estruturas anatômicas orgânicas e que podem indicar aquilo que, nas camadas profundas de um organismo, é difícil ou muitas vezes impossível de ver. A visão do que não é visível dentro de um organismo é facultada também pelos fragmentos de radiografias, ressaltados mediante sua cor, que se encontram no primeiro terço superior do trabalho.
As gotas, que parecem cair como a chuva, podem sofrer um repetido processo de desconstrução e reconstrução, analogamente ao que se encontra em "Organismus polymorphus", atribuindo, assim, sua característica polimorfa à composição. Esta adquire seu caráter de permanente dinâmica e fluidez através da montagem em cascata, tornando-se, à medida que se aproxima do espaço exterior, cada vez mais leve e unidimensional. Quanto mais a composição abre caminho pelo espaço, fluindo, como um líquido, para dentro do mesmo, tanto mais leve é a ligação existente entre os fragmentos de radiografias e a obra, sendo que estes, no final, aparecem apenas como pequenos pontos espalhados sobre a mesma. O momento fluido, ilimitado e infinito desse trabalho, a conjugação de dinâmica, de desconstrução, reconstrução e transparência do invisível num contexto novo parecem seguir a ideia do ser no eterno vir a ser do todo, encontrando, dessa forma, uma expressão impressionante.

por Marie Christiane Seiferth

 

MYSTERIUM ESSE REVELANDUM

The aim of this installation entitled Mysterium esse revelandum, is to encourage people to approach the composition, with it impressive dimensions. While wandering around this artwork, visually exploring it from top to bottom, discovering all of its details, the viewer becomes entwined with the flow of thoughts regarding the numerous questions that it raises.The installation encountered within this space comprises superimposed layers of synthetic foils in a range of aquatic colors, all held together by a support on the ceiling from whence they tumble down in a supple manner, woven together in pieces, and spread across a synthetic, purple background, in the form of a splattering drop onto which droplets have been splashed and small cutout points spread throughout. Within the composition of colors, the internal layers contain the deepest of those that make up the tones of water, and the layers, arranged in chains and fixed with nylon yarn, are reminiscent of a water fall. Outside the piece there are hanging transparencies that form the shapes of various dripping globules and droplets. Amongst them, fragments of radiographs have been placed, cut into the form of drops of water. The viewer gains an inside view of the innermost parts of a biological organism, and thus discovers an internal, inaccessible world.Transparent cutout shapes dangling from the various elements of the composition are, due to its very structure, suggestive of a DNA chain. In turn, within the transparencies, it is possible to catch a sporadic glimpse of thin lines drawn in red, which correspond to the organic and micro-aquatic structures. It is a fact that the active gaze, which the composition both encourages and demands, thereby creating a relationship, in an adorian sense, between the active viewer and the artwork, causes reflection to become a dynamic action, hence bringing the name of the installed artwork to a visible reality. The title Mysterium esse revelandum is a reference to the Latin manner of expressing a task that has to be performed, which in Portuguese would correspond to the verb dever (duty) or the idiom é para ser (to be done). Therefore, the desire of the installation is to initiate a confrontation between each of its underlying motifs and the fundamental thoughts regarding the mysteries of life and of existence itself which, according to the title, should be and are to be revealed by each and every one of us. If we consider that each individual as the subject of her/his own story should encounter the pathway that reveals the existential questions of life, then this artistic installation becomes an invitation for people to look inside themselves, providing a moment of contemplation and active reflection.


AEQUILIBRIUM COSMICUM

The basic motif depicted in the compositions of the series "Aequilibrium cosmicum" is refracted within a profundity of chromatic dimensions. The arrangement and composition of the plastic, colored transparencies reflect the multiplicity of the layers of colors, forms and dimensions. Meanwhile the forms and structures sketched at certain points throughout the piece bring a hint of anatomical topographies. The superimposed multicolored transparencies bring forth multilayered chromatic dimensions, and the resulting combination of multifaceted colors is the interaction created between the transparent sheets and the overlapping colors. The transparency of the materials as well as the radiographic fragments inserted into the composition, bring into view what would otherwise be invisible, paving the way to inner geognostic knowledge.


ORGANISMUS POLYMORPHUS

From the perspective of an almost microscopic profundity, the viewer penetrates the interior of an organism, encountering a porous background of synthetic foam or a sensitive background of latex which, due to their very structures, are evocative of skin, which has not yet been arranged in such a manner as to form a surface. Milky synthetic transparencies arranged in multidimensional layers overlap these backgrounds in a vivid, dynamic manner, permeated also by cutout forms. Fine pencil drawings may be encountered at certain points, fixed with hair spray, presenting details of organic anatomical forms and structures. The polymorphous character of an organism is revealed through the fact that multiple layers of transparencies may be deconstructed and reconstructed ad infinitum.


ORGANUM

On the flat superimposed layers of acrylic, parts of an organism are presented as if they were mounted on microscope slides. The observer journeys into the interior of the organism, composed of various layered sheets of pencil drawings, supported on a foam base, which to the beholder seems to bring it together as one single unit. The eye rests inside the foam base with its large pores, which because of its structure and color, resembles skin. Milky synthetic sheets are superimposed in unconnected, multidimensional layers displaying cut­out apertures. The fine pencil drawings, the details and form of this organic­anatomical structure give the impression of an inner life, apart and hidden. The work preserves the artistic expression of the vitality of an organism by means of a polymorphic nature, namely, being able to deconstruct and reconstruct itself infinitely, or to reorder and allocate the layers of individual sheets in order to gain a new, detailed observation of the life inside its structure. In this ever­changing game on the keyboard of life, in the profound dimensions of an organically growing composition, Organum brings with it a mode of artistic expression.


SCALA NATURAE

Aristotelian thoughts on cosmic order (in which all creatures exist to a degree of perfection, corresponding to a progressive, harmoniously-ordered whole) is once again addressed, explored and expanded, in both dimensional aspects as well as personal.The rounded leaves bearing colors of the sky, the sea and human skin are threaded into an arrangement, like a constantly dynamic /multidimensional motif, so much so that the composition reveals itself as a combination of shapes, colors and motifs with the intention of simultaneously preserving both depth and innovation.The finely-traced anatomical-organic structures are scattered evenly across transparent sheets. Pieces of copper cut into the shape of droplets are suspended within the composition, which because of the manner in which they are distributed, brings a particular optical balance to the piece as a whole and, as a natural oxidizing element, is evocative of the permanent changes and transformations that all beings undergo.The work stands as a challenge, allowing itself to engage with the organizing motif, in which the underlying stream of thought plunges deeply, seeking its own position in the all-harmonious order of life.


TOPOGRAPHIAE FLUENTES

The combination of shapes and colours in this vivacious composition is inspired by the work of Brazilian landscape architect Roberto Burle Marx. The numerous brightly coloured transparencies, cut into the form of waves or droplets, appear - because of the multi-dimensional composition - to be in a state of free fall, thus creating its own rhythm. The unconstrained order and multiple dimensions of this work – where just one small nail fixes each of the wave- or droplet-shaped transparencies at varying distances from one another – and through the introduction of light, allow the reflection of the colours and shadows of each wave- or droplet-shaped transparency. At certain points of this work we also come across thin lines revealing images of anatomical organic structures and forms. The rhythm and fluidity contained within this composition is also acquired through its perpetuum mobile.


OS TEMPOS E OS MARES

With its superimposed, wave-like, non-transparent, turquoise green synthetic leaves, Time and the Seas marks the transition to a self-reflexive, conclusive phase of Elizabeth’s artistic expression. The aspect of temporality, of moments in infinitude, receives a marked emphasis. The work consists of gently undulating layers, which as a whole seem to form the shape of a droplet. Golden pendulums, each in its own rhythm, are fixed to the waves. A falling droplet allows us to foresee the infinitude of water through its density. The pendulums, through their very rhythms, become sensitive to the irresistibility of the world - while time remains totally personal and human. In this work, the instant of eternity and the moment of infinitude seem to set the tone and render the temporality of life perceivable.


PANTA RHEI

The grandiose expression of Panta rhei is acquired through the perpetual dynamism of its motif. Transparencies with a range of colors taken from the sea, plus several different forms of water droplets are suspended, throughout various layers, like falling tears or scattered raindrops, within the first upper third of this composition, mounted on a background with the colors of water. The composition also consists of several transparencies in the form of puddles or amoebae, reaching up to the height of the wall as well as opening its course, apparently free of barriers, and into the surrounding space. As in the previous works, here we also encounter, albeit less, thinly etched lines that correspond to organic anatomical structures that seem to be showing us, within the deep layers of an organism, that which is often difficult or even impossible to see. This vision of that which is not visible within an organism is also provided by fragments of radiographs highlighted by their colour, inserted into the first upper third of the work.
The droplets that seem to be falling like raindrops, undergo a repeated process of deconstruction and reconstruction, an analogy of what may be encountered in Organismus polymorphus, thus assigning its polymorphic features to the composition. The characteristics of perpetual dynamism and fluidity have been acquired through being mounted as a waterfall which, as it flows towards the outer space, becomes increasingly lighter and one-dimensional. As the composition progressively opens its course, flowing into the space as liquid, so the link that exists between the fragments of radiographs and the work as a whole, take on a lighter aspect, appearing towards the end, just as small dots scattered throughout. The unlimited, infinite moment of fluidity of this study, the combination of dynamism, deconstruction, reconstruction and transparency of the invisible within a new context seem to follow the idea of the eternal becoming the being of entirety, thus encountering an impressive expression.

by Marie Christiane Seiferth